Sonhos de Lili
Pelos idos dos anos 1960, minha mãe me disse:
— Filho, tenho um sonho que será difícil de ser realizado.
Pensei comigo: será que um dia poderei realizar o sonho de minha mãe? E qual seria esse sonho?
Perguntei à minha Lili. E ela, com a tranquilidade de sempre, me mostrou as fotos do meu livro de geografia, passando a mão pelos mapas e apontando os lugares que gostaria de conhecer, se tivesse oportunidade.
Argumentei que alguns desses lugares seriam muito difíceis — só nos livros, atlas e filmes poderíamos vê-los. Outros, porém, como o “Gogó da Ema”, em Fortaleza, e o Elevador Lacerda, em Salvador, nós poderíamos visitar com mais facilidade.
O sorriso se abriu, as lições continuaram, e aquela conversa ficou comigo por muitos anos. Marcou minha memória. Passei a anotar tudo, fazendo comentários em uma pequena caderneta de compras que peguei “emprestada” no Armazém do Custódio Cruz, nosso vizinho lá de Miracema.
Casei, meus filhos nasceram em Miracema e me mudei para Campos — na época, ainda sem o agregado “dos Goytacazes”, como hoje. Porém, sempre há um porém.
Na segunda mudança aqui na Planície Goytacá, quando compramos nosso apartamento, a tal caderneta apareceu, como que do nada. Em uma noite fria, sem nada para fazer, sentei-me na varanda e folheei, página por página, as anotações feitas nas conversas com minha mãe sobre viagens.
Quais eram esses sonhos de mamãe? Ir a Fátima, em Portugal, e orar no Santuário. Passear nas gôndolas de Veneza. Ver de perto a Torre Eiffel, em Paris. E, finalmente, conhecer Roma e visitar o Coliseu.
Chegando a Madrid — 2005
E um dia, após voltarmos da Espanha — onde fui receber meu prêmio da ESPN Internacional, em um concurso de crônicas sobre o Campeonato Espanhol, que me rendeu uma viagem a Madrid e alguns dólares para gastar por lá —, eu e Marina conversamos e combinamos: faríamos economia durante três anos e, em 2008, realizaríamos a viagem que mamãe não pôde fazer.
Sim, Dona Lili não pôde. Partiu muito cedo, aos 67 anos, em 1992, deixando um sonho a ser realizado. E, naquele tempo, felizmente, eu poderia fazer com que ela, lá de cima, visse seu sonho ganhar o mundo.
Lisboa — 2008: Marina e o poeta Pessoa
E veio o ano combinado. Em 2008, já aposentados, eu e Marina fomos até a Esperança Turismo e encontramos um jovem sonhador, com enorme vontade de ser operador de turismo: Rildo Júnior. Inteligente, sonhador — como minha mãe e eu.
Traçamos um roteiro que incluía Fátima, Paris, Roma e Veneza. E, para completar, trocando ideias, fechamos um pacote dentro das nossas possibilidades, incluindo lugares que queríamos — e outros que jamais imaginávamos conhecer, como Monte Carlo, em Mônaco, ou os Alpes suíços.
A tão sonhada viagem de Dona Lili começou no dia 11 de setembro de 2008, quando saímos do Rio de Janeiro — Aeroporto Internacional Maestro Antonio Carlos Jobim — com destino a Lisboa. Desembarcamos no Aeroporto Humberto Delgado na manhã seguinte, às sete horas, para iniciar um giro de vinte e dois dias por terras europeias, atravessando cinco países em ônibus da Europamundo, a operadora que nos daria suporte no continente.
Aeroporto de Lisboa — 2008
A chegada foi um pouco complicada: a operadora não enviou um representante para nos buscar. Mas, felizmente, estávamos em território desconhecido — porém de mesma língua — e, em poucos minutos, resolvemos a situação. Logo estávamos acomodados no hotel e devidamente apresentados à nossa guia, recebendo as primeiras informações sobre o roteiro e o programa do dia seguinte. Afinal, aquele 12 de setembro era livre, e poderíamos ter nosso primeiro contato com Lisboa por conta própria.
E foi o que fizemos. Procuramos um grupo que havia chegado no mesmo voo e logo nos entrosamos. Saímos sem destino: pegamos o metrô e fomos parar no ponto final — justamente um ponto turístico bastante procurado, a Praça das Nações, construída para a Exposição Mundial de 1998.
Foi ali que tivemos nosso primeiro contato com o vinho e o bacalhau portugueses. E foi ali que nasceu a primeira das muitas histórias que ainda contarei por aqui, durante esta nossa viagem virtual.
Comentários
Postar um comentário